Simbologia, culto e paisagem sagrada na antiga Ophiussa
Muito antes de Roma, a serpente já ondulava nas rochas, espadas, aras votivas e objetos cerimoniais da antiga Ibéria. Na mitologia universal é ciclo, regeneração, sabedoria, ligação à terra. Aqui, porém, ganhou contornos telúricos e totémicos, profundamente enraizados nas culturas castrejas e pré-romanas do noroeste.
Aparece gravada em pedras — como na célebre Pedra da Serpe da Galiza —, esculpida em altares, evocada em lendas transmitidas de geração em geração. Inteligência subterrânea, força vital em espirais silenciosas, guiando os ritmos da natureza e os ciclos da vida.
Na antiga Gallaecia sobrevivem inscrições que evocam divindades profundamente enraizadas na natureza: Nabia, senhora das fontes e rios, da fertilidade e da proteção; Reue, talvez celeste, talvez soberano; Trebaruna, do lar e da guerra; Cossus, deus guerreiro do norte; Berobreo, dos altos montes e do além.
Forças vivas, enraizadas em lugares específicos — montes, promontórios, nascentes, rios, fragas. Cultuadas com oferendas, rituais e inscrições latinas que ainda guardavam nomes nativos.
A ligação direta à serpente pode não estar sempre visível, mas o mesmo simbolismo cíclico, subterrâneo e regenerador atravessa estes cultos: venerava-se a natureza, celebrava-se a morte e o renascimento, os poderes invisíveis da paisagem e do território.
Na antiga Ophiussa, o sagrado não se erguia em templos. Manifestava-se na natureza. A espiritualidade era geográfica, telúrica, inseparável da paisagem.
Hoje, quando caminhamos por trilhos e encontramos castros, lagoas, dólmenes e miradouros, esse eco persiste: uma reconexão à terra que não exige fé, apenas atenção, presença e respeito.
Na Ophiussa antiga não se buscava um céu distante. O divino estava na pedra, na água, no vento — e no espírito que os habitava.