“Chamavam-na Ophiussa, pois dizem que entre os seus habitantes há um povo que descende de serpentes.” — Rufus Festus Avieno, Ora Marítima, séc. IV
O símbolo da serpente transcende o réptil que se esconde por entre as pedras. É arquétipo, marca identitária e memória ancestral — uma daquelas imagens que a humanidade produz repetidamente, em culturas separadas por oceanos e séculos, como se respondesse a algo que a experiência partilha mas a linguagem comum não consegue conter. O mito de um povo descendente de serpentes pode ser lido de várias formas: como ligação profunda à terra, como metáfora de sabedoria primordial, como eco de cultos anteriores à presença romana. O que importa não é a literalidade da afirmação, mas a sua persistência. Qualquer que tenha sido a sua origem, o nome sobreviveu aos milénios como vestígio de uma tradição simbólica entranhada no substrato cultural da região.
Ao invocar Ophiussa como ponto de partida, este guia propõe uma leitura do território onde a serpente emerge não como lenda decorativa, mas como chave de interpretação da paisagem, memória viva entre o ser humano e a terra.